sábado, 13 de março de 2010

O homem pra chamar de seu

IVAN MARTINS

editor executivo da Época


Certa vez, faz algum tempo, eu estava num show de música quando uma moça perto do palco gritou umas palavras amorosas para o cantor. Não me lembro do que ela disse, mas recordo perfeitamente da reação da minha acompanhante. Ela ajeitou o cabelo, deu um sorriso maldoso e falou alto o suficiente para que todos em volta escutassem: "Coitada, acho que não tem homem em casa".

Naquele momento eu percebi duas coisas. Primeiro, como a minha companheira podia ser cruel quando se tratava de outras mulheres. Segundo, que a minha presença ao lado dela representava uma espécie de passaporte. Ao contrário da "coitada" que gritava na beira do palco, ela tinha um homem em casa.

Tenho falado sobre isso com amigos e amigas e a conclusão é sempre a mesma: a importância social de ter um par é muito maior para as mulheres. Homens sozinhos costumam ser infantis e autodestrutivos, mas transitam socialmente sem constrangimentos. Mulheres sozinhas atraem a atenção dos chatos e dos críticos – e parecem elas mesmas desconfortáveis no papel de solitárias. Quando não são claramente discriminadas.
Uma amiga me disse que quando estava separada não era convidada nem para as festas dos amigos. As outras mulheres se sentiam ameaçadas por aquela fêmea bonita e disponível que podia atrair a atenção dos maridos delas.

Para contornar o preconceito, inventam-se truques. Tenho um amigo quarentão que vira e mexe é convidado para o papel de "cavalheiro de companhia". Quando as amigas solteiras têm uma festa de família ou evento da firma, levam com elas aquele grisalho elegante como uma espécie de adereço social de 90 kg. Com ele por perto, ninguém vai dizer que estão sozinhas.
Em outras classes sociais, a situação é diferente, mas parecida.

Tive uma faxineira cujo marido aprontava o diabo – vira e mexe sumia, enroscado num rabo de saia. A coitada pagava até despacho para ter o safado de volta. Um dia, cansado de ouvir a mesma queixa, perguntei por que ela não mandava o sem vergonha passear. "Não posso", ela disse. "Lá onde eu moro, mulher sem homem em casa perde o respeito." Talvez ela estivesse exagerando, mas parecia verdade.

Na classe média, a necessidade de proteção não existe. Tampouco existe a necessidade econômica do provedor. As mulheres trabalham e ganham cada vez melhor. Por volta dos 30, boa parte delas terá casa, emprego e independência. Serão lindas e donas do seu nariz. Mas, se não tiverem parceiro, a vida pode lhes parecer um lixo – embora seja, sob vários aspectos, melhor que a vida das mulheres casadas, sobretudo as que têm filhos. Para não estarem sós, mulheres bacanas frequentemente se sujeitam ao convívio de homens muito abaixo delas em inteligência, cultura e caráter.

Para ser justo, homens também sofrem de compulsão do acasalamento. Mesmo o mais insensível garanhão acaba se rendendo à sensação de que precisa de alguém. Já ouvi de vários amigos, em várias idades diferentes, que tinham "feito de tudo" e que sentiam vontade de sossegar. Se eles sossegaram ou não, é outra história. Mas em algum momento acharam que era necessário.

A diferença, a meu ver, é que nos homens o desejo de formar um casal parece vir de dentro, é fruto da solidão, enquanto nas mulheres há uma força importante que age de fora para dentro. Não há o equivalente masculino de “ficar para tia”. Do contrário: o sujeito que permanece na farra é visto com inveja pelos outros homens. É o cara que "sabe viver".

Com as mulheres tudo parece diferente – talvez por culpa delas mesmas. Talvez as mulheres brasileiras do século 21 devessem aprender a resistir à pressão social do século 19 para exibir um homem. Por que elas não podem ir ao bar ou à festa da firma sozinhas? As argentinas fazem isso. As européias fazem isso. Não há um imperativo biológico de andar em par.

Outro dia, um amigo que viveu em Angola me contou que lá os homens poderosos têm, além da mulher, um número elevado de amantes públicas. Todo mundo sabe e todo mundo aceita. Cada uma das mulheres, eu imagino, tem o seu pedaço do homem importante, socialmente falando. Parece coisa de sociedade atrasada. Duvido que acontecesse na Escandinávia, onde as mulheres têm poder. Talvez seja, na verdade, um indicador de desenvolvimento social: quanto mais pobre, quanto mais atrasada uma sociedade, mais a mulher precisa de um homem para chamar de seu, simbólica e economicamente.

Naquela noite do show, quando a moça gritou e foi tratada com tanto desprezo, eu saí com a sensação de que a minha companheira era mais frágil do que eu imaginava. Tive a súbita impressão de que ela estivera muitas vezes na posição solitária da outra, e que agora, acompanhada, parecia se vingar com um comentário vulgar. De repente me pareceu que a mulher que eu imaginava altiva e auto-suficiente era apenas uma fêmea aliviada por ter um macho para exibir no teatro. Tive na hora um sentimento forte e confuso que só mais tarde fui capaz de entender – era vergonha dela.

(Ivan Martins escreve às quartas-feiras.)

domingo, 7 de março de 2010

DIFÍCIL ARTE DE SER MULHER - FREI BETTO


Adital - H
ours concours em Cannes, um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi "Ágora", direção de Alejandro Amenabar. A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante em "O jardineiro fiel", dirigido por Fernando Meirelles.

Em "Ágora" ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro.

Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural.

Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.

O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a opressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina.

Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes.

Onde há oferta de produtos - TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas - o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição.

Segundo a ironia da Ciranda da bailarina, de Edu Lobo e Chico Buarque, "Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina que não tem". Se tiver, será execrada pelos padrões machistas por ser gorda, velha, sem atributos físicos que a tornem desejável.

Se abre a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fantasias, e não de realidade; da vida privada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: "gata", "vaca", "avião", "melancia" etc.

Para evitar ser execrada, agora Hipácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera destinasse aos famintos o que deixa de ingerir...), mudar o vestuário o mais frequentemente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir anomalias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos).

Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solidariedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).

Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mulher. Ele tem a posse dos bens (patrimônio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimônio). E, é claro, ela é incluída entre os bens... Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher.

No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser batizada, casada e enterrada... Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartir, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inteligência, ainda que cultos.

Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade?

Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade.

[Autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros]


FREI BETTO
Escritor e assessor de movimentos sociais

segunda-feira, 1 de março de 2010

ENCONTRANDO SENTIDO PRA MINHA VIDA - CONVERSA DE MSN 3






B

oi





Gaby

tdb?













B

bem e vc





B

BEM E VOCE?





Gaby

to bem tb... fz pesquisa pro teatro.. encontrei depoimentos da minha tia e do meu avo na internet.. to passando pro povo do teatro





B

ahm legal





B

eles foam da ditadura né?





Gaby

sim.. ai acabei de ligar pra minha tia..





Gaby

q mara q foi!





Gaby

ela vai lah no espaço dar o depoimento dela.. e ainda perguntei se havia alguma reuniao da juventude socialista.. ela disse q tem td terça reunioes sobre isso q vao jovens tb e q ela participa! vou comecar a ir! de terça num tenho ensaio, por enquanto





Gaby

vou ligar pra ela amanha pra marcar de ir na casa dela... to com um projeto de fz uma especie de documentario sobre isso.. ela vai ajudar demais.. o gilson vai colocar na peça a aurea moreti q foi presa e meio q militou tb... vou propor dele estudar a historia da minha tia... pq minha tia militou mto.. militou em sp e aqui tb





B

humm





Gaby

nossa, to fascinada com o depoimento do meu avô.. e da minha tia





Gaby

cara.. num acredito nisso.. q vontade de lutar, de participar.. acho q era isso q faltava na minha vida e ta começando a me preencher.. q orgulho





Gaby

vou ver se amanha vou ver as filmadoras no ribeirao





Gaby
ja fui ontem com o marcos no novo shop





Gaby
mas, lah na fast shop ta mais barato e nessas lojas de informatica tb... faz tempo q qro uma filmadora.. meu pai tinha eu vivia usando, mas roubaram





B
filmadora é mto bom





Gaby
eu preciso demais gravar td isso, nossa, qto tempo perdi.. eu ja vinha falando pro meu avo q ia fz um livro com as historias engracadas q ele conta... mas antes, vou fz sobre isso, sobre a vida de militancia dele... e da minha tia...





B
:)





Gaby
hj eu entendo pq me tornei vegetariana principalmente pelos animais e pelo meio ambiente... foi por td q ouvi minha vida td.. meu avo nunca falou de vegetarianismo, mas pela palavra e pelo exemplo, sempre deixou bem claro a luta pela igualdade e a importancia de ser humano... as vezes ele vem do nda conversar comigo e fala q um dia vai parar de comer carne e q admira esse ato..







q tem mta do dos animais e q naum precisamos matar pra viver





Gaby

tah mais do q na hr de eu lutar por td q acredito de vdd... seja pelo teatro, pelo vegetarianismo.. pelo trabalho social... pelo comunismo, socialismo e pelos meus textos





B

isso luta sim... q um dia colhe frutos

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